Carmen Santos e a construção da personagem feminina brasileira

Por Rafaella Britto

(Foto: Reprodução)

“Máscula. Personalidade forte, rígida, imperativa. Movimentos rápidos, incisivos, retangulares. Sem meneios, sem artifícios, sem curvas, sem futilidades. Espírito de decisão, qualidades de chefe. Energia inquieta. Um espírito de general à procura d’um exército... Vontade indomável, intransigente. Uma mulher que caminha como homem, com saltos a Luis XV. Passos largos, firmes, duros, ritmados. Uma linha reta atravessando a multidão, indiferente às calçadas, à chuva e aos homens...”

Assim escreveu o jornalista Afonso de Carvalho em artigo publicado no jornal A Manhã, em 10 de setembro de 1935.
Estrela irrefutável, porém pouco abrangida nas páginas de nossa memória, a luso-brasileira Carmen Santos tornou-se a primeira musa do cinema nacional, contribuindo significativamente para a construção da personagem feminina livre e de espírito transgressor, e rompendo a dicotomia entre a vamp (estereótipo da “mulher fatal” e sedutora) e a virgem imaculada. 
Atriz, produtora, roteirista, cineasta e empresária, desafiou o machismo e o conservadorismo característicos de sua época. Sua autobiografia, onde descreve os dias de luta na indústria cinematográfica brasileira, intitula-se “Dezessete Anos no Inferno”.

(Foto: Reprodução)

Maria do Carmo Santos Gonçalves – ou simplesmente Carmen Santos - nasceu em Vila Flor, vila portuguesa localizada na região Norte, em 8 de junho de 1904. Imigrou para o Rio de Janeiro com a família em 1912, aos oito anos de idade. O pai, João dos Santos Gonçalves, era marceneiro, e não podia dar conta do sustento de toda sua família. Como filha mais velha, Carmen abandonou a escola pública para trabalhar em importante casa de modas, onde tinha como função pregar botões. A pesquisadora Ana Pessoa, em seu livro “Carmen Santos e o cinema dos anos 20”, relata os primeiros anos da atriz e a condição feminina na sociedade de sua época:

“As indústrias de confecções, “vestuário e toucador”, assim como a indústria têxtil, são as mais receptivas frentes de trabalho para as mulheres e meninas dos baixos extratos sociais. As atividades de tecer, costurar e pregar botões nas oficinas de costura transformam em unidade de produção o universo doméstico feminino de fios, agulhas e carretéis.” (PESSOA, 2002, p.22)

Carmen Santos como a personagem Lenita no filme "A Carne" (1924)
(Foto: Reprodução)

De operária, Carmen é promovida ao cargo de vendedora de varejo, sendo aclamada por sua beleza, e considerada a mais bela funcionária.
A chegada do técnico americano de cinema William Jansen ao Brasil e a instalação da produtora Omega Film sacodem o panorama artístico nacional. Apaixonada pelo cinema, Carmen decide fazer o teste para a Omega e é selecionada para interpretar Marta, uma jovem sofredora e desamparada, no filme "Urutau", de 1919, dirigido por Jansen.
A seguir, interpretou as jovens moças no desabrochar do sexo, Lenita e Rosalina, nos respectivos "A Carne", de 1924, adaptação do romance de Júlio Ribeiro, e "Mademoiselle Cinema", de 1925, ambos inacabados. Embora esses filmes jamais tenham sido lançados comercialmente, Carmen era já uma estrela em ascensão.


Carmen Santos como a personagem Lenita no filme "A Carne" (1924)
(Foto: Reprodução/Flickr)

Neste tempo, Carmen conhece Antônio Seabra, jovem e rico empresário do ramo de tecidos, e iniciam uma relação aberta. Carmen continua a viver com seus pais em uma casa na Tijuca, Rio de Janeiro, sendo sustentada por Seabra, que oferecia suportes financeiros a suas empreitadas no cinema. A relação, alvo das fofocas e da moral da sociedade conservadora, era mantida distante da publicidade. Carmen tinha entre quinze e dezesseis anos quando conheceu Seabra, e assim rompeu mais uma barreira no destino reservado às mulheres de sua condição social:

"A paixão aumenta o inconformismo da jovem atriz, levando-a não somente a afirmar suas perspectivas profissionais como a romper com um dos mais sagrados valores da sociedade de sua época: a virgindade. Segundo os preceitos jurídicos em vigor, o relacionamento sexual precoce era severamente punido – o desvirginamento de menores de 16 anos, independente do uso ou não de violência, era considerado um estupro." (PESSOA, 2002, ps. 35-36).

(Foto: Reprodução)

Em 1929, aceitou protagonizar o filme “Sangue Mineiro” e, a partir de então, manteve-se parceira de importantes nomes do cinema, como os diretores Humberto Mauro, Adhemar Gonzaga e Mário Peixoto (autor do célebre filme “Limite”).
Em “Sangue Mineiro”, ela interpreta uma personagem de mesmo nome, mocinha romântica e desiludida no amor. No entanto, o seu desejo era interpretar flappers sensuais, mulheres de força e autonomia e, mais tarde, ela revelou que só aceitou o papel em “Sangue Mineiro” para integrar o ciclo artístico de Cataguases (cidade de Minas Gerais que, na época, estava à frente do Movimento Moderno, nos primórdios do cinema brasileiro). “Acho que devo fazer bem exatamente a mulher moderna, a ‘sapeca’, na expressão vulgar, com um fundo de sinceridade e sentimentalismo”, disse ela à revista Cinearte.

Carmen Santos em "Sangue Mineiro", de Humberto Mauro (1929)
(Foto: Reprodução)

Em 1930, participou do mítico “Limite”, a obra-prima do cineasta Mário Peixoto. Em seguida, Mário convidou-a para protagonizar sua nova produção, “Onde a Terra acaba”. Carmen julgou a personagem Eva a idealização de seu desejo em interpretar mulheres fortes: uma escritora foge para uma ilha em busca de isolamento e inspiração para a escrita de seu romance. A sua presença põe em xeque a amizade de dois homens, habitantes da ilha. O caso de amor com um deles o desperta para uma realidade até então desconhecida e o enredo desenvolve-se a partir do drama existencial. No entanto, a produção de “Onde a Terra acaba” fracassou e as filmagens foram interrompidas. 

  

Associada ao diretor Humberto Mauro desde “Sangue Mineiro”, Carmen fundou sua produtora, a Brasil Vox Filmes, que, a partir de 1935, veio a se chamar Brasil Vita Filmes. Produziu e atuou nos filmes “Favela dos meus amores” (onde interpreta uma elegante professora da favela que desperta o amor de dois homens), e “Cidade-Mulher” (como a filha de um empresário teatral falido), ambos dirigidos por Mauro.

Carmen Santos em "Cidade-Mulher", de Humberto Mauro (1936)
(Foto: Reprodução/Flickr)

Carmen Santos em "Favela dos Meus Amores", de Humberto Mauro (1935)
(Foto: Reprodução/Flickr)

O fotógrafo Edgar Brazil e Carmen Santos nos estúdios da Brasil Vita Filmes
(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução/Flickr)

Carmen era referida como “A Dama” por seus colegas de profissão. A despeito dos estigmas impostos por sua origem de pobre imigrante, a jovem atriz representava a figura da nova condição feminina. Sua personalidade despertava frisson entre homens e mulheres, como descreve o jornalista Afonso de Carvalho em artigo do jornal A Manhã:


“[...] Rude. Inteligência sem jaça, clara, límpida, com uma velocidade de reflexão fulminante. Um talento em revolta permanente contra todas convenções, preconceitos e mentiras sociais. Atitudes e aparências confusas, muitas vezes incoerentes e, às vezes, desconcertantes. [...]. Boníssima e justiceira de sentimento. Simples. Boa. Instintiva. Brutalmente franca. Senhora absoluta da sua vontade. Uma força de domínio absoluto sobre si mesma e de severa autocrítica das suas ações. Tolerante muitas vezes por excesso de bondade. Intransigente por espírito de disciplina moral para consigo mesma. Veio para a vida de baixo para cima, pelo seu próprio esforço, pelo seu trabalho e pela vontade irreprimível de vencer. Hoje, olha o mundo de alto para baixo sem inveja de riquezas, sem ambições e vaidades, comovendo-se apenas no contato da miséria. Máscula. Sincera. Rude. Bondosa.”

Carmen Santos ao lado do cineasta Humberto Mauro (centro)
(Foto: Reprodução/Flickr)

Carmen Santos e sua equipe na produtora Brasil Vita Filmes, dentre eles, o cineasta Humberto Mauro (último, à direita)
(Foto: Reprodução/Flickr)

(Foto: Reprodução/Flickr)

Em 1936, Carmen declarou não estar se sentindo realizada nos seus últimos projetos: “Pelo meu temperamento cigano e romântico, pelo que tenho sofrido, pela minha maneira de compreender a vida, só os papéis fortes para as grandes emoções é que me satisfazem”.
No auge do Estado Novo, integrou o movimento pela reivindicação de apoio governamental às produções nacionais e fundou seu próprio estúdio. Em nota, escreveu ao presidente Getúlio Vargas:

“No Cinema Brasileiro, eu ficaria profundamente magoada se me dessem o título de 'estrela' – eu sou um cérebro que trabalha desabaladamente das oito às 24 horas, que luta pela organização da indústria cinematográfica em nosso país com a máxima sinceridade e, por isso, quase sempre, sozinha [...] quero é trabalho, produção conscienciosa; é cinema na nossa língua; costumes, ambientes, técnica, tudo brasileiro; absolutamente, essencialmente brasileiro."

(Foto: Reprodução)

A partir de então, debruçou-se sobre seu maior e mais ambicioso projeto: a adaptação da Inconfidência Mineira para o cinema, filme que roteirizou, dirigiu e em que atuou como Bárbara Heliodora. Brasil Gerson, o autor do argumento, descreveu o perfil da heroína idealizada por Carmen:

“Bárbara Heliodora foi a mulher mais bonita, mais amorosa, mais culta do Brasil do século XVIII e, no entanto, nada disso a impediu também de ser uma heroína, dedicada de corpo e alma a uma grande causa coletiva, uma revolucionária que amou, fez versos, teve quatro filhos e se sacrificou pela libertação de seu povo. Nada mais falso, portanto, do que se dizer que as mulheres que se esquecem de si mesmas para se dedicar a empreendimentos tidos como privativos dos homens são feias, frias, insensíveis e inadaptáveis a tudo quanto se relacione com as coisas subtis e agradáveis que Deus inventou...”     

Carmen Santos como Bárbara Heliodora no filme "Inconfidência Mineira" (1948)
(Foto: Reprodução/Banco de Conteúdos Culturais - Cinemateca Brasileira)

A grandiosa produção levou onze anos para ser concluída. Ao longo deste período, Carmen pouco veio a público. Quando indagada pela Cine-Rádio Jornal acerca de próximos projetos, respondeu: “Pretendo, mas não há nada assentado até agora. Por enquanto, procurarei, apenas, terminar Inconfidência e não formulo mais nenhum projeto.”
Em "Inconfidência Mineira", estreava nas telas como figurante o então jovem ator Anselmo Duarte. "A Carmen, que era portuguesa, foi uma grande pioneira do cinema brasileiro e terminou destruindo sua carreira por causa da obsessão em contar a história da Inconfidência Mineira", disse Anselmo. "Ela planejou o filme em 1937, começou a filmar em 1939 e só terminou em 1948. Foram muitos problemas, de produção e até de ordem pessoal. Rodolfo Meyer fazia Tiradentes e eu fiz minha estréia no cinema como figurante, sem direito a fala." 

Carmen Santos como Bárbara Heliodora no filme "Inconfidência Mineira" (1948)
(Foto: Reprodução/Banco de Conteúdos Culturais - Cinemateca Brasileira)

Em 1940, Carmen encontrou-se na personagem Luciana, sua mais memorável interpretação, no drama “Argila”, de Humberto Mauro: uma jovem e rica viúva, em busca do sentido da vida, apaixona-se por um simples artesão da roça, Gilberto (interpretado por Celso Guimarães), com quem partilha do amor pela arte marajoara. O polêmico beijo impulsionado por Luciana, representação da mulher como dominadora, ilustra a imagem do cartaz, exposto durante a exibição de "Argila" nos cinemas. 


Desde 1935, Carmen mantinha um relacionamento afetivo com o jornalista comunista e roteirista Brasil Gerson, autor dos argumentos de “Argila” e “Inconfidência”. Por razões políticas, Brasil Gerson exilou-se na Argentina. Ele e Carmen haviam sido acusados de integrarem uma célula comunista nos anos da repressão.


Carmen Santos e a equipe de produção de "Inconfidência Mineira" (1948)
(Foto: Reprodução/Flickr)

As filmagens de “Inconfidência Mineira” iniciaram-se em 1941 e só foram concluídas em 1948, mas a produção já havia se iniciado em 1937. Onze anos de trabalho redundaram em fracasso de bilheteria. Falida, Carmen vendeu o estúdio.
Grande parte de sua obra foi perdida durante um incêndio. De “Inconfidência Mineira” restaram somente fragmentos. Do período do cinema mudo, restaram “Sangue Mineiro” e “Limite”, e do cinema falado, apenas “Argila” sobreviveu até os nossos dias.
Faleceu em 24 de setembro de 1952, aos quarenta e oito anos de idade, vítima de câncer. Em nota, deixou escrito: “Nada desejo. Nada espero. Nada.”


Carmen Santos como Bárbara Heliodora em "Inconfidência Mineira" (1948)
(Foto: Reprodução/Banco de Conteúdos Culturais - Cinemateca Brasileira)


Fontes e referências bibliográficas:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

7 comentários:

  1. Rafa, que texto genial! Mais parece um artigo científico!
    Conhecia Carmen de nome e por algumas fotos, e foi fascinante descobrir mais sobre ela. Que mulher incrível, à frente do seu tempo. Um exemplo para todas as brasileiras.
    Beijos!

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    1. Fico muito feliz que tenha gostado, Lê!

      Beijos!

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  2. Tive o privilégio de assistir ao filme "Argila" agora há pouco com Rafaella - minha brilhante filha!
    Carmen Santos tem o perfil absolutamente adequado ao artigo.
    Carmen Santos é forte, linda, intrigante, inteligente, elegante, audaciosa, sedutora, resoluta e nobre!
    Parabéns, Rafinha!

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  3. Tive o privilégio de assistir ao filme "Argila" agora há pouco com Rafaella - minha brilhante filha!
    Carmen Santos tem o perfil absolutamente adequado ao artigo.
    Carmen Santos é forte, linda, intrigante, inteligente, elegante, audaciosa, sedutora, resoluta e nobre!
    Parabéns pelo texto Rafinha!

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  4. Gostei de conhecer Carmen Santos.Ótimo texto.

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  5. Que texto sensacional! Procurando sobre o filme, achei sua matéria e estou aqui chocada com essa maravilhosidade!

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